NAVEGUE AQUI

quinta-feira, 5 de julho de 2012

FAMÍLIA SOCÓ



A senhora Socó andava de bico baixo. Desde que a ninhada de cinco socozinhos nascera, as coisas não iam bem naquela parte do pântano. O senhor Socó não investia tempo em ajudar a coçar os filhotes, se bem que sempre descia aos alagados, trazia a papa e regurgitava nos seus bicos. Dona Socó era grata por isso, mas entendia que o papel de pai ia além da provisão. 

O fato é que a carência afetiva gerou uma crise familiar, pois ela só, se dedicava a coçar cada socó, e ainda se sentia só, pois também não era coçada há muito tempo.
         
Por entender que a responsabilidade de coçar os socós era também do senhor Socó, resolveu fazer um confronto usando os princípios de comunicação excelente. Sem arrepiar as penas, ressaltar as unhas e nem abrir em demasia o bico, disse que se sentia só, pois há muito tempo não tinha chance de coçar o senhor Socó e nem era coçada por ele. E claro, sem receber os depósitos emocionais que deveriam vir de cada coçada do senhor Socó, ainda precisando retirar da alma solitária, energia para coçar cada socó de sua ninhada, estava esgotada e carente de ser coçada. Como a senhora Socó expressou sem acusar, entendeu o senhor Socó o seu dever de coçar a ela e a seus socós.
           
O senhor Socó, meio voador em termos dos sentimentos femininos, pediu que ela fosse mais clara em suas colocações e foi dessa conversa de ajuste familiar que surgiu esta célebre frase usada para ensinar os humanos, à língua destravar: “é muito socó, para um socó, só, coçar”.
          
Diante disso, o senhor Socó, não só destravou a língua, mas também o coração; coisa muito difícil para um socó macho. E, sem socar  sua amada Socó, disse não estar coçando e nem sendo coçado fora do ninho, apenas andava ressentido, pois depois da ninhada de socós, todas as coçadas ficaram para eles.
          
Numa casa, onde todos coçam e são coçados, não há carência afetiva, pois até no mundo animal todos carecem de amar e ser amados, coçar e ser coçados.


Reflexões:
Como conciliar papéis do pai e marido?
Comente a habilidade da senhora Socó em resolver a crise de sua casa?
Em seu contexto familiar, como está a arte de coçar e a graça de se permitir ser coçado?

 Walter da Mata
COMPARTILHE:

Um comentário:

  1. Parabéns papai! Texto criativo, lúdico e inteligente; mensagem atual e provoca reflexão. Sou seu fã.

    ResponderExcluir