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terça-feira, 18 de setembro de 2012

A DOR QUE NÃO VAI EMBORA



Transcorriam os anos noventa. Eram dias difíceis no contexto da família, pois um dos meus filhos estava preso às drogas e vivia perigosamente e expunha toda família ao constante perigo. A dor de nossa casa era imensurável.
             
No estacionamento do prédio onde trabalhava, desci do meu fusquinha, enquanto expressava minha dor por meio da canção: “Ó meu Jesus, quando lutas no caminho encontrar, a tua mão divina vem me ajudar...” (326 HC), nem cheguei a perceber que parado no carro lado havia alguém, até que ouvi: -- “Mas que canção doída é esta? Se você é cristão, só existe alegria, pois voce é filho do Rei. Procure um pastor para conversar.”
             
Por sorte, ela não sabia que eu era pastor, pois talvez bateria com mais veemência.
             
Verdade é que nos dias de hoje,  no seio da cristandade, alardeamos que estamos inseridos em um avivamento de louvor e celebração, bem diferente dos anteriores, marcados por lágrimas, arrependimento e clamor, onde não há espaço para dor, sofrimento, perdas, enfermidades, pois somos a geração dos vitoriosos.
             
Essa crença se reflete em nossa hinódia, pois canções que expressam nossa humanidade, muitas vezes cheia de  angústia, não encontram espaço. Qual a última vez que cantamos: “Se tu, minh’alma a Deus suplicas, e não recebes, confiando fica...” ou qualquer canção moderna que lembre nossa humanidade?
             
Evidente que não defendo a construção de um “muro das lamentações” no interior dos templos, mas não posso deixar de ver na bíblia alguns pontos salientes quanto ao sofrimento:

  • Isaque, o filho da promessa, enclausurar-se por mais de vinte anos, vítima da cegueira, até a morte;
  • Raquel, a amada de Jacó, morrendo ainda jovem, no momento do parto;
  • Jesus, o Filho de Deus, dizendo aos discípulos: “a minha alma está angustiada até à morte;
            O cotidiano pastoral, me desafia ao ver cristãos a quem admiro, lidando com sofrimento:
  • O livro Karis, mostra o sofrimento da família Kornfield, pastores e missionários com influência em boa parte do mundo;
  • Escute a dor de Asafe Borba, que nos abençoa com suas canções;
  • Pais cristãos, cujos filhos nascem com lesões irreversíveis;
             
Acompanhei alguns que já se foram e outros que experimentam o sofrimento, acamados, com dores alucinantes, mesmo sendo servos do Senhor.
             
Em nenhum momento, excluo a intervenção miraculosa de Deus, eu mesmo já fui alvo de tamanha graça, mas o que afirmo é que numa dimensão muito mais alta, oculta aos mais sábios e santos, algumas coisas são decidas unicamente pela soberania divina, deixando para nós humanos, duas opções: descansar resignadamente em Deus ou viver com a alma irada contra as pessoas e contra Deus.
             
Não podemos escolher entre sofrer ou não, mas podemos escolher entre a acusação, a culpa, sentimento de filho menos amado ou uma resignação santa que produz adaptabilidade oscilante, entre esperanças e frustrações, mas que nos mantem firmes na caminhada, por saber que “as aflições do tempo presente, não são de comparar com a gloria que em nós há de ser revelada”. Viver o melhor, apesar de...
             
Que Deus me dê um coração que se mova de compaixão pelos que sofrem, que me comprometa com a intercessão, já que desconheço os desígnios do Pai, sem jamais me assentar na cadeira de magistrado, julgando os que estão em sofrimento, lhes impondo ainda maior dor, a da culpa, por algo que não podem explicar
             
Quando, em seu sofrimento, sentires desejo de cantar, cante: “por duas provas e perseguições, permites o fiel passar... seu eu não posso levar minha cruz, depressa vem me ajudar. Não tardes mais, amoroso Jesus, ó vem me confortar”. (328 HC)

Afinal, voce é como eu, humano.

Walter da Mata
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