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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Quem Desmanchou Meu Ninho?


Ninhos são construídos pelo amor. Poucas cenas me emocionam tanto como ver pássaros reunindo gravetos e folhas para construir um ninho e, finalmente, arrancando as próprias penas para afofá-los. É uma obra de arte e amor, mas com propósitos temporários. Ali os ovos são chocados, filhotes chegam, são aquecidos e alimentados diretamente no bico. É uma relação de amor e sobrevivência.  Mas a vida continua e os pais levam seus filhos para pequenas incursões ao mundo da competição, lá aonde o alimento é disputado entre os pares e outras espécies, e apenas aqueles que aprendem a encontrar seu próprio sustento e escapar dos predadores tornam-se adultos e, no futuro, formam nova família e dão continuidade ao ciclo da vida.

É natural que um dia o alimento não mais seja servido em forma de papa, diretamente no bico; é natural que um dia o ninho precise ser esvaziado, pois seu modelo foi construído para abrigar apenas filhotes e não aves crescidas. É natural que os filhotes aprendam a usar suas asas e, assim, busquem um espaço em local diferenciado, onde um novo ninho será estabelecido.

No mundo dos humanos também deveria ser assim. Filhos deveriam crescer, tornarem-se adultos, saberem defender-se, buscarem seu próprio sustento e finalmente, formarem uma nova família. Mas nem sempre isso acontece, alguns se recusam a deixar o ninho, não assumem o papel de adulto, vivem como se a infância nunca terminasse.  Não se preparam para voar, insistem na proteção maternal. Mas de quem é a responsabilidade? Quem tem o dever de treiná-los? Por que isto não foi feito na hora certa? Por que alguns pais insistem em manter sob suas asas “filhinhos” de trinta, quarenta anos ou mais? Talvez pelo medo de que, nas aventuras da vida, os filhos venham se ferir, alguns pais não permitem seus voos arriscados. Parece até que, eles mesmos, chegaram à idade adulta sem as cicatrizes de suas decolagens fracassadas. Se esquecem de que um dia eles mesmos se vão e seus filhos não terão mais um ninho para viveram como adultos infantilizados.

Assim como os pássaros, pais precisam por fim ao ciclo da dependência e preparar os filhos para o auto-sustento e com uma graça especial, “expulsá-los” em amor, para fora do ninho, para que se desenvolvam como adultos saudáveis.  Isto mesmo, ninhos precisam ser desfeitos, crianças precisam chegar à fase adulta, pais devem sair do papel de protetores e gestores da vida de seus filhos, para se tornarem mentores. Essa transição é o melhor que os pais podem fazer por seus filhos. Vale ressaltar que “expulsá-los” sem treinamento para a vida é transferir um problema, em lugar de resolvê-lo.

Aqui, quero honrar meus pais, Francolino e Heroina, mesmo não sendo doutores nas academias, foram mestres na vida, souberam esvaziar o ninho de nove filhotes, mantendo vínculos de amor, reverência, respeito e honra. 

Walter da Mata.
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3 comentários:

  1. Tenho passado por essa experiência,ñ é fácil para nenhum dos dois lados, mas é necessário, tem que ser feito e ponto final!

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  2. Pr Jonas Mendes:
    Gostei do texto ,retrata bem o que alguns pais vivem na lida com filhos,chama-me a atenção o fato de alguns filhos que não querem receber "asas" no que diz respeito a assumir responsabilidades,as vezes até querem asas de liberdade mas não de responsabilidade.Há movimentos por aí para mudanças de legislação para jovens tirar habilitação para dirigir aos l6 anos, mas é provável que menos pessoas se movimentam para que também respondam criminalmente por seus atos nessa idade.Querer voar é bom e até prazeroso em algumas situações,agora assumir os riscos da decolagem poucos querem.

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  3. Amei este texto, mas há aqueles que defendem,que é melhor permanecer no ninho, pois ali os filhotes não precisam trocar torneira que está vazando, nem lampada queimada,desentupir a pia, nem pagar água, luz,telefone, IPTU. Pensando bem acho que devo voltar para aquele ninho.
    Ah! Não posso já sou adulto.

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