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quarta-feira, 6 de março de 2013

A Invasora


A árvore era exuberante. Suas folhas balançavam como que regidas pela batuta do vento entoando melodias em ritmos diferenciados. Seu tronco rígido não a permitia dobrar-se ante as tempestades, profundas raízes mantinham-na inabalável.

Era assim altaneira e bela, abrigando pessoas e animais.

Mas foi sua alma acolhedora quem a traiu. Sem perceber, abrigou em um de seus galhos uma semente parasita. Uma gralha, despretensiosa, liberou a maldita semente, que logo germinou, lançou suas raízes rumo aos canais de seiva e de lá chegou ao cerne do lenho. Flores e cores da nova hóspede deram novos matizes quebrando a monotonia verde, dando a falsa impressão de que, embaixo de seus galhos, tudo agora era alegria.

O tempo encarregou-se de revelar a tragédia. A cada primavera, novas flores, novas sementes e novas extensões eram acrescidas aos diversos galhos. Logo, o verde desbotou, galhos foram perdendo vida, novos brotos deixaram de surgir, pois os poucos canais de seiva que ainda restavam eram canalizados para espécie invasora. Por fim, perdeu a identidade, sua marca fora engolida, era conhecida pela beleza parasitária que dava a impressão de ter dado significado a então singela, mas exuberante árvore.

O sucesso de uma, destruía a outra. Raízes perdiam forças, poucas folhas tentavam sobreviver tirando energia dos galhos em decomposição e o cerne tornou-se macio como um bulbo, determinando o fim. Seus galhos e tronco, já sem vida, garantiam, no processo de decomposição, a sobrevivência da hospedeira, que agora ocupava não o galho inicial, mas toda a extensão daquela que um dia fora a mãe de toda a floresta.

Na vida é assim, parasitas podem ser sentimentos, atitudes, pessoas e pecados que permitimos que se acomodem em nós e que, inicialmente, se tornam a força motivadora de nossos atos, mas com o tempo, nos tiram a energia, a alegria de viver e o próprio sentido da vida.

Dedico o texto a todas as pessoas que precisam reunir forças para não se deixarem engolir. 

Walter da Mata
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