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sexta-feira, 18 de setembro de 2015


GATOS APAIXONADOS

            Após um dia exaustivo de trabalho, no melhor da madrugada, meu sono é interrompido por um romance felino. Dois amantes resolveram fazer um ensaio de juras de amor ao pé da janela do meu quarto; e nem precisa perguntar o quanto isso me incomodou. Acendi a luz da varanda na esperança de que os gritos do cio fossem interrompidos. Sem sucesso, o romance prosseguia a todo gás.
            Precisava dormir, uma jornada de trabalho me aguardava e não podia permitir que dois bichanos enamorados estragassem meus compromissos profissionais. Então, conspirando contra o amor, parti para o ataque: afastei a cortina, desenhei as coordenadas dos amantes, fui até a cozinha e preparei um balde cheio de água fria, pois dizem que um banho de água gelada, principalmente involuntário, é anti afrodisíaco. A guerra ao amor estava declarada.
            Puxei sorrateiramente  a cortina e com ímpeto, joguei toda a água sobre os bichanos. Bingo! O tiro saiu pela culatra, pois toda água voltou sobre mim, molhando meu pijama e molhando móveis e escorrendo pelo piso. Por um simples detalhe: esqueci de abrir a janela.
            Elizabete  ameaçou sorrir e eu ameacei de volta, caso ouvisse um risinho. Claro, ela sorriu com o rosto coberto pelo edredom.  Os gatos foram embora, penso que sorrindo, diante de minha pequena falhae eu fui limpar toda bagunça armada no meio da madrugada. Hoje, mais de trinta anos depois, ainda damos risadas sobre isso.
            Tudo por causa da transparência do vidro, pois ela me permite ver o que está do outro lado, mas não me permite ver o objeto que é transparente. Quantas pessoas, além de mim,  já bateram com a cara em uma porta de vidro?  Com certeza muitas.
            Aqui, comento a transparência ontológica: são as coisas que fazemos no automático. Já fazem parte de nossa vida e que não paramos para pensar ao fazê-las. Você, alguma vez, já saiu dirigindo o seu carro e, quando chegou ao destino, descobriu não se lembrar dos detalhes do trajeto? Comigo já. Cheguei ao final da Asa Sul, em Brasília, vindo de Sobradinho e não me lembrava de ter passado pelo buraco do tatu, um pequeno túnel no cruzamento dos eixos. São comportamentos costumeiros que nós mesmos não percebemos.  É o vidro da minha janela.
            Fora da dimensão física, temos nossas janelas transparentes, que são comportamentos, emoções, ações e reações que não percebemos. A gente não vê.  Podemos ser inconvenientes, sarcásticos, mordazes, rígidos, mentirosos e mais uma série de coisas que incomodam os outros, mas que a gente não vê e por isso não nos preocupamos com a mudança. 
            Aqui entra um ponto relevante, ensina pelo Dr. Homero Reis: Só podemos intervir no mundo que podemos enxergar.  Eu não vi a vidraça, por isso não intervim, mas isso não a impediu de devolver toda a água sobre mim, e não naquele momento a transparência foi quebrada. O fato de não enxergar um problema em mim, não significa que ele não exista e que não cause problemas aos circunstantes.
            A gente sempre conhece alguémque por onde passa acontece os mesmos problemas, instalam as mesmas crises relacionais e esse alguémtem sempre boas explicações.  Está sempre olhando para fora, vendo nos outros os gatos que incomodam, mas não vê a vidraça que o deixa cego, pois ela é transparente. A vidraça somos nós e tudo que nos constitui.
            Muitos fatos acontecem em nossa vida com o propósito de quebrar nossa cegueira sobre nós mesmos  e levar-nos a olhar não mais na vidraça, mas no espelho, pois eles costumam ser cruéis, mas verdadeiros. Daí vem a necessidade nos relacionamentos, ter alguém perto da gente, a quem delegamos  autoridade para jogar água na vidraça que não vemos.
Agradeça aos gatosque te incomodam na madrugada!
Agradeça os problemas que estão acontecendo em sua vida!
Agradeça aos amigos que te dizem aquilo que te incomoda!
Pois eles te ajudam a distinguir o  mundo que você não vê, mas que está gritando por necessidade de mudança.
Grato aos dois felinos anônimos, que até hoje me fazem sorrir e aprender.

Walter da Mata



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