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domingo, 10 de março de 2019

ÚLTIMO TOQUE




O artista olha o quadro
Com ar de admiração
Antes de baixar o pano
Retorna a tinha à mão

Entre os vegetais
Nada a retocar
Nos astros celestes então
Só coisa pra admirar

Observou cada animal
Nada  a acrescentar
Em pares se  reconhecem
Todos a celebrar

Já ia baixar o pano
Seus olhos enxergam um borrão
Lágrimas nos olhos do homem
Manchavam a criação

Se recusou assinar
Pois queria a perfeição
Chegou mais perto pra ver
Encontrou a solidão

A lágrima dissolve a tinta
Adão sozinho, triste é;
Espaço se abre na tela
Onde se encaixa a mulher

A criação é assinada
O pano cobre a tela
O criador reconhece
A obra é perfeita com ela

Walter da Mata  10/03/2019


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O SILÊNCIO E A VOZ




A alma tenta fugir à realidade
Coagida pelo coração a palpitar
Empurra o corpo ao deserto
Quer apenas ouvir, nada a falar

O arauto da anunciação
Que a espada de Herodes fez calar
Sepulcro está o corpo acéfalo
O maior entre nascidos de mulher

O Divino entre os homens
Deles agora quer se afastar
O silêncio da voz no deserto
Faz sua alma chorar

A multidão no deserto é despedida
Leva saúde,  compaixão e pão;
Passos lentos ao cume do monte
O divino homem busca a solidão

A morte de João antecipa o cálice 
 No topo, o silêncio e a oração
A conversa particular com o Pai
Renova sempre, a força da missão.

                                                       Walter da Mata

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