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segunda-feira, 13 de abril de 2020

MEMÓRIAS DE UM ENFORCADO









“A vingança é um prato que se come frio.”

 Não se reage ao insulto no calor das emoções, aguarda-se o tempo passar, o assunto sair das manchetes e aos poucos as rodas de conversas já não o abordam e quando alguém se atreve a trazer à lembrança, todos dizem: isso é coisa do passado e mudam logo o rumo da prosa. Mas para o ferido, que por razões diversas não tratou da mágoa, a dor corrói silenciosamente o íntimo do ser, os dias são lentos e aos poucos a corda da emoção já vai apertando o pescoço, limitando a respiração, numa espécie de enforcamento em pequenas doses, pois são contados minuto a minuto para celebrar a vingança ou até mesmo ser protagonista dela.

Assim vivia Aitofel, conselheiro do rei Davi, mantinha-se “fiel” no seu serviço de porta-voz da vontade de Deus para o rei, mas a ferida causada por Davi, ao destruir o lar de Bate-Seba, sua neta, nunca sarou. Ela se tornou rainha, vivia do melhor no palácio, seu filho Salomão seria sucessor no trono, mas nada disso curou a ferida de Aitofel.

A família de Aitofel era gente palaciana e de confiança de Davi. Ele conselheiro-mor*, seu filho Eliã, um dos notáveis guerreiros**e sua neta Bate-Seba, casou-se com Urias, que também compunha a lista de guerreiros notáveis. Se Davi queria mexer num vespeiro, Bate-Seba era a isca ideal; deixou-se dominar pela sedução ao ver o corpo desnudo de Bate-Seba, que se banhava descuidada à vista da janela real e se formou uma sequência de desatino. Adultério, tentativa de transferir responsabilidade, embriaguez, manipulação na frente de batalha, homicídio, Bate-Seba se torna mulher do rei e a morte de um recém-nascido. O confronto de Natã leva a confissão e o tempo passou trazendo consequências do pecado sobre a família de Davi, culminando com a conspiração de Absalão e a tomada do trono.

Não é de admirar que Aitofel tenha sido cooptado por Absalão para usurpar o trono e lá estava ele como conselheiro do novo rei, traçando estratégias de guerra na primeira pessoa: “Deixa-me escolher doze mil homens, e me levantarei e seguirei após Davi esta noite. E irei sobre ele... e o espantarei... então ferirei só o rei”****. A guerra já não era mais uma questão de Estado, era uma vingança pessoal. Treze anos se passaram e finalmente a oportunidade da vingança chegou: vingaria a ofensa a sua neta, a traição aceita por Joabe e a morte de Urias. Durante esse tempo, seu coração armazenou ressentimento e amargura e estava disposto a matar Davi com suas próprias mãos.

A estratégia de guerra, proposta por Aitofel, foi preterida em relação à proposta de Husai, conselheiro plantado por Davi no palácio, para confundir seu conselho. Isso potencializou a dor de Aitofel;  ver seu conceito cair diante do novo monarca, foi demais para sua emoção ferida e humilhado retirou-se para sua terra e enforcou-se. Perdera a última chance de lidar com a dor no meio da vingança.

Por treze anos, seu prato fervente de vingança esteve esfriando, mas bastou uma centelha de ódio para que a fornalha emocional fervesse em seu coração. Nesses treze anos, quantas vezes ele esteve com Davi diante da arca da aliança, quantos louvores entoou junto com os levitas, em muitos sacrifícios esteve presente, mas não abriu seu coração para o perdão. O problema já não era com Davi, o problema era de Aitofel para com Aitofel, pois não conseguiu liberar o perdão e a dor que finalmente lhe tirou a vida.

O corpo foi encontrado pendurado por uma corda; encerrava um processo de morte que se iniciara há mais de uma década, a corda apenas deu seu último aperto.

Todos, em algum momento da vida, ferem e são feridos, isso é inevitável diante da pecaminosidade inerente aos humanos; pode se evitar o pior, pode chorar, gritar, gemer e sofrer dores na alma e no corpo como parte de externar o sofrimento, mas a vida só reencontrará o seu lugar o dia em que a ira der lugar a paz, o ódio ceder diante do amor, o desejo de vingança diante da misericórdia. Nessa hora, descobre-se que a dor já não tem muito a ver com o outro, mas consigo mesmo, então se acorda pra vida, para não ter que puxar a corda que leva a morte.

*IISm 16.33;      ** IISm 23.34     *** IISm 23.34     **** IISm 17.1-2


Walter da Mata      10/4/2020





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